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Para os meus e para os que não sendo meus, são meus.

...


V – O Dom da Perspectiva

por Pedro Madeira Alves, em 15.06.15

I

 

  

Já lhe aconteceu estar entre pessoas desconhecidas, ser apresentado a alguém e, antes mesmo de haver o cumprimento, você já se ter apercebido que o seu interlocutor não nutre propriamente grandes e simpáticos sentimentos por si?

 

 

Já? Não está sozinho. Aliás, está muito longe de estar sozinho.

 

 

Já lhe aconteceu, depois de ter criado uma forte ligação simpática com alguém, tudo se esvair sem razão aparente?

 

 

 Já? Não está sozinho. Aliás, está muito longe de estar sozinho.

 

 

II

 

  

Todos nós sabemos que existem pessoas com motivações muito longe de poderem ser classificadas de nobres.  

 

 

Gente que tem um “gosto” enorme pela sombra e que, por ciúme, inveja, ego, manutenção do seu “pequeno e ridículo poderzinho”, tudo fará para minar alguém.

 

 

Gente capaz de denegrir, mesmo que de forma totalmente injusta e caluniosa, a imagem e o bom-nome de terceiros.

 

 

Sem apelo nem agravo. Sem a mínima dor de consciência.

 

 

E os mais inteligentes não o fazem de uma vez só. Nunca aparecem e fazem-no devagar. Pouco a pouco. Degrau a degrau e você nem vai notar.

 

 

Mas a maior parte deles julga que nem da inteligência precisa. E, se necessário for, não têm qualquer problema em usar crianças. Usar crianças e lançá-las contra alguém. Inclusive alguém da sua própria família.

 

 

Se necessário for…

 

 

III

 

  

 

Imagine que, você é um familiar e que em todas as reuniões alargadas de família, um adolescente, fica “instruído” pelo próprio pai, para contestar todas as suas posições, para demonstrar antipaticamente a “suposta” falta de qualidade de todas as suas argumentações, reflexões e afirmações.

 

 

O que faria?

 

 

Nada? Culparia a criança, adquirindo ressentimento e falta de simpatia? Ou iria directamente à fonte e daria uma lição ao pai da criança?

 

 

IV

 

  

Imagine os seus filhos virados contra si pela própria mãe (ou próprio pai). Anos, anos e anos de pura maledicência…

 

 

O que faria?

 

 

Iria dando “correctivos” nos seus filhos? Daria uma lição à mãe (pai)? Ou não faria nada garantindo assim que os seus próprios filhos herdariam a falta de carácter da sua mãe (pai)?

 

 

V

 

  

Imagine que o seu tio tem esta loja e que o seu irmão “manda” o filho de 5 anos “sensibilizar” o tio para ficar com a loja sobre a qual você tem iguais direitos.

 

 

Imagine que você sabe da história pelo seu próprio tio e é ele que lhe relata o seu imenso espanto e desagrado para com o seu irmão por ele ter cometido a baixaria de usar uma criança. A sua, dele, tremenda desilusão de ver uma criança ser utilizada para lhe pedir algo que implicava a própria morte!

 

 

Imagine que você sabe que o seu tio se está completamente a borrifar para a falta de carácter do seu irmão. Você sabe que o seu tio só lhe contou a história para lhe demonstrar a falta de consideração que o seu irmão tem por si, apesar de você sempre o ter acarinhado e apoiado. Para o pôr a si como putativo aliado contra o arrivismo do seu irmão.  

 

 

O que faria?

 

 

Desistiria da loja? Não faria nada? Daria uma lição merecida ao seu irmão? Ao seu irmão e ao seu tio? Sentir-se-ia enojado por pertencer àquela família e mandá-la-ia às malvas? Um psiquiatra e um gato? Um tiro na cabeça?

 

 

VI

 

  

A verdade é que, no meu entender, haverá poucas situações em que se adequa melhor a noção de imperativo categórico de Kant (apesar de eu não ser grande fã da mesma).

 

 

Usar crianças demonstra uma tremenda falta de carácter. Usar crianças é feio.

 

 

Pode-se usar crianças?

 

 

Não! Um imperativo não!

 

  

VII

 

  

Mas há algo que me aflige tanto quanto esta enorme baixaria usada, infelizmente, por tanta gente.

 

 

Há já algum tempo atrás tive esta espécie de namorada. Licenciada, diferenciada e bonita. Passado algum tempo de convivência fui passar um fim-de-semana alargado com ela. E convivi com a filha de 5 anos.

 

 

A criança era extremamente difícil. Uma quase histeria constante desde que acordava até adormecer. Gritos constantes, birras estarrecedoras, pratos e talheres pelo ar, loiças pela janela fora…

 

 

Ao nos virmos embora, ela agradeceu-me a forma como tratei a filha. Agradeceu-me a educação e a paciência. E referindo que a filha era incontrolável e que não sabia o que haveria de fazer, pediu-me desculpa pelo comportamento da filha.

 

 

Ficou espantadíssima com a minha resposta. Disse-lhe que nunca culparia uma criança. Mas não resisti e disse-lhe mais. Fiz-lhe uma pergunta. Adivinha de quem é a responsabilidade?

 

 

Ficámos por ali.

 

 

E é isto que me aflige e que me espanta! O que verdadeiramente me espanta é que ela desejasse que eu usasse a própria filha, imputando-lhe culpas que ela nunca poderia ter, para ter o “privilégio” de me dar com ela.

 

 

E o facto de ela ter pensado que eu poderia ter tido gosto em pactuar com toda aquela disfuncionalidade não é só extremamente assustador. É profundamente ofensivo.

 

 

E pronto!

 

 

E se considerássemos ofensiva toda e qualquer baixaria (pelo menos as relacionadas com crianças) e agíssemos activamente e de acordo com a situação?

 

 

É apenas uma questão de perspectiva.

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publicado às 23:12



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